Comunicação CFC
.
Durante os dias 12 e 13 de novembro, a International Federation of Accountants (Ifac) promoveu mais uma edição do Ifac Global Connect. Neste ano, a Cidade do México foi a sede escolhida para reunir lideranças da profissão contábil de todo o mundo com o objetivo de discutir prioridades, fortalecer os laços globais e promover o avanço da profissão em benefício do interesse público.
No segundo dia de atividades, o painel de abertura foi moderado por Monica Foerster, conselheira do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e presidente do Comitê de Pequenas e Médias Empresas (SMPAG) da Ifac. Na ocasião, líderes contábeis da América Latina debateram como a região pode assumir um papel mais relevante na transformação regulatória global. Com o tema central voltado para o equilíbrio entre alinhamento internacional e as especificidades locais, a sessão destacou desafios como a incorporação de padrões globais, inovações tecnológicas e a crescente demanda por relatórios que abordam questões de sustentabilidade e ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla traduzida).
Sebastian Yoshizato Soares, presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon), trouxe à discussão importantes avanços e desafios enfrentados pela contabilidade no Brasil, especialmente no contexto dos relatórios corporativos mais amplos e das divulgações de sustentabilidade.
“O Brasil está se preparando ativamente para a elaboração e garantia de qualidade nos relatórios de sustentabilidade, o que reforça o papel crucial da profissão contábil na promoção de práticas de mercado mais transparentes e alinhadas às expectativas globais”, destacou Sebastian. Ele citou dois marcos regulatórios introduzidos este ano no Brasil: a Resolução 193, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e a Resolução 1710, do CFC. Ambas atribuem aos contadores a responsabilidade de preparar, divulgar e assegurar informações financeiras e de sustentabilidade.
Como parte desse avanço, Sebastian ressaltou que o CFC, os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs) e o Ibracon têm promovido mais de 20 eventos focados na agenda de sustentabilidade até 2025. Além disso, o programa de Educação Profissional Continuada está sendo redesenhado para incluir tópicos mínimos relacionados à sustentabilidade como exigência entre as atuais 40 horas de treinamento anual.
“A capacidade técnica continuará sendo nosso maior desafio, mas temos convicção de que nenhuma outra profissão tem o conjunto de habilidades e a expertise dos contadores para liderar essa pauta”, afirmou. Ele também enfatizou a necessidade de colaboração com outras áreas, como engenharia ambiental e ciência do clima, para integrar informações não financeiras às divulgações contábeis de sustentabilidade.
Sebastian ainda destacou que o Brasil vai enfrentar, em breve, três grandes desafios que moldarão a profissão contábil nos próximos anos: a integração de tecnologias como inteligência artificial (IA), o avanço da agenda de sustentabilidade e uma reforma tributária histórica, com implementação prevista entre 2026 e 2034. Ele abordou ainda a importância da revisão do currículo contábil nacional, que, após 20 anos de discussão, foi aprovado no início de 2024 e entrará em vigor em março de 2026.
“O novo currículo vai incluir competências relacionadas a soft skills, tecnologia e resolução de problemas corporativos, além de reforçar o papel da contabilidade como motor para resolver questões sociais e socioeconômicas, pilares da ESG”, acrescentou Sebastian. Ele elogiou o trabalho de Maria Clara Bugarim, presidente da comissão responsável pelo projeto, chamando-o de “um divisor de águas” que transformará a formação dos futuros contadores no Brasil.
Papel do México no alinhamento regulatório
O vice-presidente internacional do Instituto Mexicano de Contadores Públicos (IMCP), Rafael García, destacou que o México continua avançando em iniciativas para alinhar-se a padrões globais, especialmente no que diz respeito à cooperação regulatória transfronteiriça. Ele citou como exemplo os acordos de certificação estabelecidos com os Estados Unidos e o Canadá, que facilitaram o reconhecimento mútuo de qualificações profissionais na região.
De acordo com Rafael, um dos aprendizados mais importantes que o México pode oferecer ao cenário global é a importância de construir sistemas regulatórios harmonizados. “Precisamos impulsionar esforços colaborativos para garantir que os padrões regulatórios em toda a América Latina sejam consistentes, mas que ao mesmo tempo respeitem as particularidades locais”, comentou.
Confiança na Argentina
A representante da Federación Argentina de Consejos Profesionales de Ciencias Económicas (FACPCE), Silvia Giordano, trouxe um olhar específico sobre os desafios enfrentados pela contabilidade na Argentina. No contexto de instabilidade econômica e mudanças regulatórias frequentes, Silvia destacou que o foco deve ser reconstruir a confiança nos mercados de capitais argentinos por meio de relatórios financeiros robustos, transparentes e confiáveis.
Ela ressaltou que, para permanecer relevante, a profissão contábil argentina deve investir em capacidade técnica global e ao mesmo tempo reforçar sua credibilidade no nível local. Silvia também argumentou que organizações como a FACPCE precisam desempenhar um papel maior na educação e na qualificação de futuros contadores para que possam atuar em um cenário regulatório complexo.
Monica Foerster, moderadora do painel, reconduziu as falas dos palestrantes ressaltando a urgência de alinhar as vozes da América Latina para que a região tenha maior influência na transformação regulatória global.
“Estamos em um momento crítico para a América Latina. O equilíbrio entre engajamento regional e alinhamento global deve ser a base de todas as nossas ações nos próximos anos”, afirmou Monica. A interação com o público também trouxe questões práticas, como os desafios de atrair jovens talentos para a profissão e manter os profissionais engajados em um cenário tecnológico em constante evolução. Os painelistas enfatizaram que a integração da tecnologia, aliada à sustentabilidade e à modernização educacional, será central para garantir a relevância e o crescimento da profissão.
Uma caminhada estratégica para o futuro
O painel concluiu com um consenso: a América Latina possui um potencial enorme para moldar o cenário regulatório global, mas isso requer ação coordenada, inovação tecnológica e um forte investimento em talento e capacitação. Os avanços trazidos pelo Brasil, México e Argentina mostram que é possível superar desafios locais e ao mesmo tempo contribuir para o alinhamento global. Se bem direcionados, esses esforços podem transformar a profissão contábil na região e posicioná-la como referência internacional em inovação, sustentabilidade e confiabilidade.
A reprodução deste material é permitida desde que a fonte seja citada.




