Painel destaca o contador do século XXI como protagonista da história das empresas e guardião da confiança

Em um cenário global de transformações aceleradas, a contabilidade reafirma seu papel não apenas como ciência dos números, mas como uma profissão de propósito, estratégia e impacto social. Durante o Seminário de Planejamento Estratégico e Governança do Sistema CFC/CRCs, o painel “Atratividade da Profissão: Estratégias de Recrutamento e Retenção” foi tema de debate conduzido pela embaixadora internacional do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Maria Clara Cavalcanti Bugarim.

A participação de dois palestrantes estrangeiros marcou o encontro de lideranças do Brasil, Portugal e Colômbia. O foco das apresentações convergiu para um objetivo comum: humanizar a narrativa da contabilidade para atrair as novas gerações e preparar a profissão para a era da Inteligência Artificial (IA). Segundo Manuel Arias, representante da International Federation of Accountants (Ifac), a profissão enfrenta atualmente o que especialistas chamam de “lacuna de percepção”.

“Não temos um problema de relevância; temos um problema de como contamos nossa história”, afirmou Arias. “Precisamos deixar de ser vistos apenas como ‘as pessoas boas em números’ para sermos reconhecidos como assessores estratégicos, criadores de valor e guardiões da confiança na economia digital.”

A representante da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) de Portugal, Paula Franco, compartilhou dados sobre a renovação da classe em seu país. “Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes e a profissão contábil conta com 72 mil membros. O ingresso de jovens saltou de aproximadamente 600, em 2018, para uma projeção superior a 4 mil em 2025”, revelou. Em seguida, ela explicou a estratégia adotada para alcançar esses resultados.

“Nossa estratégia contou com três pilares. O primeiro é o propósito além do salário. Embora a remuneração seja importante, os jovens buscam impacto e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O segundo pilar é a redução de barreiras de entrada, com a eliminação de taxas e a criação de cursos intensivos de formação prática com duração de seis meses. Por fim, adotamos um slogan que inspira: os contadores são os únicos profissionais que escrevem a história das empresas todos os dias”, explicou.

Tecnologia: ferramenta, não substituta

Um dos pontos centrais do debate foi a Inteligência Artificial. Longe de representar uma ameaça, a IA foi definida por Arias como a “libertadora do contador”. “Ao automatizar tarefas repetitivas e burocráticas, o chamado ‘lado cinzento’ da profissão, a tecnologia permite que o profissional se concentre no que é essencialmente humano: julgamento, ética e consultoria estratégica”, destacou.

Ainda segundo Arias, a tecnologia também torna a carreira mais atrativa para uma geração que busca agilidade e resultados rápidos. “Quem vai garantir que os algoritmos estão corretos? Quem vai validar a ética das decisões? O contador assume o papel de supervisor crítico e intérprete dos dados”, afirmou.

Compromisso com o futuro

As lideranças de Portugal e Colômbia também enfatizaram que o contador do século XXI é um agente de sustentabilidade e estabilidade econômica. Para Maria Clara, o desafio das entidades de classe é ampliar o diálogo com estudantes desde o ensino médio. “Precisamos apresentar uma carreira que oferece mobilidade global, desafios técnicos estimulantes e, acima de tudo, a capacidade de contribuir para um futuro mais transparente e responsável”, destacou.

“Estamos no momento certo para a nossa profissão. A troca de experiência entre países diferentes, mas com realidades muito comuns, nos revela uma classe de contadores igual em praticamente todo o mundo. Há algumas práticas que diferenciam um 'bocadinho', mas na prática, todos fazemos os mesmos tipos de demonstrações financeiras na normativa internacional, e esta troca de experiências é importantíssimo para reforçar e melhorar essas práticas”, concluiu Paula Franco.

“Finalmente temos as ferramentas para atuar como consultores estratégicos, colocando nosso conhecimento a serviço das empresas e da sociedade”, finalizou Manoel Arias. O encontro, que acontece nesta quarta-feira (11), em Brasília, reúne representantes do Sistema CFC/CRCs e de organismos internacionais para discutir temas como reciprocidade profissional e estratégias de fortalecimento da classe contábil no cenário global.

Por Rhafael Padilha
Comunicação CFC

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