Matriz curricular do curso de Ciências Contábeis foi tema no Conexão Contábil

Por Luis Fernando Souza / Estagiário sob supervisão 

No primeiro dia do Conexão Contábil (11), um dos painéis debatidos foi a matriz curricular do curso de Ciências Contábeis. Para discutir as novas propostas, estiveram presentes profissionais renomados da classe contábil, como os professores Maria Clara Cavalcante Bugarim, Elias Dib Caddah Neto, Editinete André da Rocha Garcia, Roberta Carvalho de Alencar, Marco Aurélio Gomes Barbosa, Alexandre Sanches Garcia, Sônia Maria da Silva Gomes e Roselane Moita Pierot Magalhães. O Conselho Federal de Contabilidade (CFC) colocou em audiência pública a minuta que propõe a alteração da Resolução CNE/CES n.º 10, de 16 de dezembro de 2004. A norma institui as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para o Curso de Graduação em Ciências Contábeis.

Em um formato dinâmico, todos os participantes tiveram um tempo para apresentar as suas ideias. Iniciado por Bugarim, a história do curso no Brasil foi revisitada, a fim de deixar mais clara para o público a importância de novas diretrizes. Maria Claraenfatizou aspectos e diretrizes problemáticas que guiavam – e que ainda guiam – o curso. Um exemplo disso é a prevalência do nível tecnicista, em especial a técnica de registro e de controles isolados, em atendimento ao mercado corporativo.

“O nosso currículo era rígido, inflexível e não considerava as especificidades regionais. Essa realidade começou a mudar em 1996, por meio da aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), pois ela assegurou ao ensino superior maior flexibilidade na organização curricular dos cursos, e já conseguíamos observar uma migração dos currículos mínimos para as diretrizes curriculares nacionais”, explicou a professora.

A Resolução CNE/CES n.º 10/2004 também foi apresentada. De acordo com o documento, entendeu-se que a formação profissional não deve ater-se aos conteúdos, mas promover o desenvolvimento das competências e das habilidades dos futuros profissionais.

“Mas, infelizmente, não foi esse caminho que foi seguido. Competências são várias habilidades articuladas e direcionadas à ação solucionadora em uma determinada situação. Será que, efetivamente, nos dias de hoje, estamos ensinando a rotina de um contador em uma universidade? Essa é a primeira interrogação que levantamos, pois, na verdade, o que está sendo seguido, na íntegra, são os conteúdos de formação básica, profissional e teórico-prática”, expressou Bugarim.

Após tratar desses primeiros assuntos, o professor Elias Dib apresentou duas abordagens para a educação contábil: a prescritiva específica e a baseada em competências.  Na primeira, os contadores profissionais de educação geral e técnica precisam desenvolver as habilidades necessárias. Já a segunda é definida como a capacidade desses contadores realizarem atividades dentro de uma ocupação ou função para os padrões esperados no emprego.

“Nós estamos trazendo isso para mostrar a vocês que a concepção que nos levou a apresentar essas diretrizes curriculares nacionais novas é exatamente em uma abordagem mais baseada em competências. Então, não estamos trabalhando muito em foco e conteúdo, estamos tentando perpassar as competências e habilidades que o futuro profissional precisa ter. Nós nos debruçamos em muitos documentos”, explicou Elias Caddah.

Até o momento, o escopo da proposta apresentada no evento possui oito atributos; sete competências técnicas; seis competências e habilidades gerais; e sete atitudes. As características das novas diretrizes são uma educação holística, transformadora, inter e transdisciplinar; com aprendizagem interativa e centrada no estudante; e com conexão entre aprendizagem formal e informal.

O professor ressaltou que a proposta projetada é o conjunto de diretrizes nacionais curriculares. “Quando se fala em conteúdos e disciplinas ofertadas, cada instituição de ensino busca ter a sua especificidade no local onde está inserida. A nova regulamentação é mais geral, efetivamente vai servir de norte”, explica.

As professoras Editinete Garcia e Roberta Alencar exibiram a estrutura da proposta e da organização do curso de Ciências Contábeis. No documento, são tratados os princípios e os critérios que devem guiar as diversas instituições de ensino do país, na gestão do curso de Ciências Contábeis, assim como o que eles devem proporcionar aos alunos.

O Projeto Pedagógico Curricular (PPC) também foi um tópico apresentado. De acordo com a professora Roberta, “o projeto é um documento que expressa a identidade do curso, de como ele se caracteriza e se organiza para contribuir com a formação profissional, de acordo com o que a instituição se propõe a oferecer”, ponderou.

Outro ponto abordado acerca do assunto foram os princípios norteadores do PPC, que são: organização curricular; avaliação e gestão do aprendizado; acompanhamento de egressos; integração entre graduação e pós; e iniciação científica.

Ainda na estrutura do documento, o professor Oscar Lopes abordou o Art. 5º, que trata do estágio supervisionado. Oscar disse que o artigo é voltado para a cidadania e falou sobre o trabalho na área de formação ser uma prerrogativa importante para que o aluno tenha habilidade procedimental de como agir dentro de sua profissão, de novos procedimentos para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e da adoção de trabalhos de extensão”.

“Lógico que o estudante vai ter habilidade conceitual e atitudinal, mas, na verdade, ele precisa aprender a fazer o trabalho, até para poder analisar situações”, explicou Lopes. E completou: “Estamos deixando o estágio obrigatório porque a última resolução não deixava isso de forma clara”.

Partindo para a segunda parte do documento de diretrizes, o professor Alexandre Sanches tratou dos apêndices. De forma resumida, ele mostrou para o público os quatros pilares da profissão contábil, que atualmente são: preparar/relatar informações; formular/implantar estratégias organizacionais; auditar/assegurar informações financeiras; e preparar/analisar informações fiscais/tributarias.

De acordo com o palestrante, foram adicionados mais dois pilares que estão alinhados com o mercado brasileiro, que são executar trabalhos de perícia judicial e extrajudicial; e analisar a gestão de riscos, o controle interno e outros mecanismos de governança.

“O profissional da contabilidade é o melhor para ocupar cargos em conselhos, administrações de empresa e conselhos fiscais. Então, essas competências ajudarão bastante o profissional a fazer trabalhos de aconselhamento, seja para organizações grandes ou para as menores”, explicou.

A professora Sônia Maria apresentou as competências e as habilidade gerais que estão presentes no apêndice do documento. Os principais assuntos abordados foram o uso de pesquisa e criatividade para organizar e interpretar dados, a fim de resolver problemas organizacionais, exercer liderança e comunicar-se de forma eficaz, compartilhando ideias e conceitos de modo efetivo.

De acordo com a professora, esses tópicos devem servir para que o contador possa resolver problemas organizacionais e mundiais. “Nós precisamos ter essa capacidade de pensar uma nova forma de contabilidade, porque nós só conseguimos escriturar/lançar ou contabilizar eventos sociais e de governança para além dos fatos financeiros”, afirmou.

Já no último painel, apresentado pela professora Roselane Pierot, foram abordadas atitudes de egressos. O tema, que complementa a proposta, está presente nas DCNs apresentadas, mas não estava na anterior.

De acordo com a profissional, as atitudes estão relacionadas às formas de ser e de agir, às afinidades, às emoções e aos sentimentos. Uma atitude é uma maneira organizada e coerente de pensar, sentir e reagir em relação a objetos, pessoas, grupos e questões sociais ou qualquer acontecimento no meio.

As informações desse tópico podem ser encontradas no Apêndice 1 do documento. Nessa parte do evento, foram elencadas características que embasam e reforçam as questões discutidas dentro das competências e habilidades.

Ética ao agir, compromisso com a governança e a sustentabilidade, administração de conflitos, relacionamentos interpessoais e proatividade foram as principais características faladas pela professora Roselane e que devem ser incluídas na nova DCN. 

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