Preparar lideranças para decisões de alta performance, ampliar a qualificação profissional e modernizar estruturas que impactam diretamente a profissão estão no centro da Imersão de Liderança e Governança do Sistema CFC/CRCs, realizada de 23 a 27 de agosto, em São Paulo. Promovido pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), o encontro reúne presidentes, vice-presidentes, diretores, conselheiros e representantes do Sistema em uma agenda voltada à formação, à governança e ao alinhamento estratégico diante das transformações tecnológicas, econômicas, sociais e institucionais.
Na abertura, o presidente do CFC, Joaquim Bezerra Filho, convocou as lideranças a refletirem sobre a responsabilidade de conduzir uma profissão presente nas diferentes dimensões da atividade econômica e institucional brasileira. Mais do que discutir projetos ou ações pontuais, ele propôs uma reflexão sobre o legado que a atual geração de dirigentes deixará para as próximas gerações de líderes da Contabilidade.
“Existe um chamado, existe uma responsabilidade e precisa existir um propósito”, afirmou. Para o presidente da autarquia, os atuais dirigentes são “guardiões temporários de uma missão” e toda instituição tem que ter a responsabilidade preparar seus líderes.
O presidente destacou que a preparação dos dirigentes para uma atuação de alta performance constitui uma das prioridades da gestão. “O objetivo da imersão é elevar a nossa qualidade como gestores”, ressaltou. Segundo ele, os conhecimentos construídos durante o encontro representam o início de um processo de transformação de longo prazo para todo o Sistema CFC/CRCs.
Formação de líderes ganha dimensão estratégica
Governança, ética, negociação, comunicação, gestão pública, cenário político, pessoas e liderança integram a agenda de desenvolvimento dos participantes. A proposta parte do entendimento de que mudanças em processos, estruturas e tecnologias não produzem todo o seu potencial sem pessoas preparadas para conduzi-las.
“Nós podemos até mudar organogramas, nós podemos redesenhar processos, nós podemos incorporar tecnologia, nós podemos construir o melhor planejamento estratégico, mas nenhuma destas coisas será suficiente se nós não dermos diretrizes para uma gestão pública responsável”, afirmou Joaquim Bezerra Filho.
Para ampliar o alcance dessa qualificação, o presidente reforçou o compromisso da gestão com a expansão da Escola de Gestão e Governança do Sistema CFC/CRCs.
A iniciativa integra a estratégia de investimento no capital humano e de preparação dos gestores para os desafios que deverão marcar os próximos anos da profissão. “Só acredito que a gente possa entregar algo grande se nós formos grandes”, avaliou.
Unidade orienta transformação do Sistema CFC/CRCs
A qualificação das lideranças integra um movimento mais amplo de fortalecimento institucional. Durante a Reunião do Colégio de Presidentes, foi apresentado um panorama das ações dos primeiros oito meses de gestão e destacada a atuação conjunta entre o CFC e os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs) como condição para que projetos nacionais produzam resultados em todo o país.
O Colégio de Presidentes, funciona como instância consultiva e espaço permanente para apresentação de propostas e construção de entendimentos entre os presidentes dos 27 estados. Para o presidente do CFC, unidade não significa eliminar particularidades regionais, mas construir uma visão comum sobre a profissão e sua representação perante a sociedade.
Entre as iniciativas apresentadas está a proposta de uma ouvidoria única do Sistema CFC/CRCs, com foco na aproximação com a sociedade e no fortalecimento do controle social.
Fiscalização, tecnologia e qualificação profissional
A modernização também alcança a fiscalização. O presidente do CFC defendeu uma estrutura capaz de combinar o papel regulatório com atenção às especificidades enfrentadas pelos profissionais da contabilidade. Entre as perspectivas apresentadas estão a ampliação da capacitação dos fiscais e a construção de um projeto único de proteção da sociedade, com maior integração nacional.
Na educação profissional continuada, a estratégia prevê programas segmentados conforme as diferentes áreas de atuação, com conteúdos direcionados a campos como Contabilidade Pública, Contabilidade Eleitoral, agronegócio, construção civil, conselhos de empresas, perícia, auditoria e grandes organizações.
A transformação digital completa esse conjunto de iniciativas. O CFC prevê investimentos em tecnologia e inteligência artificial para aperfeiçoar processos administrativos e financeiros, ampliar controles e fortalecer a governança. A proposta é avançar para um modelo integrado, com estruturas sustentáveis e indicadores capazes de demonstrar os resultados dos projetos executados pelo Sistema.
Novas gerações no centro da estratégia
Outro desafio colocado no centro da agenda é a aproximação com estudantes de Ciências Contábeis e profissionais em início de carreira. O presidente relatou articulação com o Ministério da Educação (MEC) para discutir a inserção de conteúdos relacionados a orçamento, educação financeira e aspectos da Contabilidade no Ensino Médio.
Para os profissionais que ingressam na atividade, o presidente apresentou a proposta de um programa de qualificação, associado a benefícios na anuidade. A intenção é estabelecer uma relação que ultrapasse a concessão do registro e acompanhe o desenvolvimento profissional nos primeiros anos de carreira.
A iniciativa busca responder a uma questão estratégica para a profissão: como aproximar as novas gerações da Contabilidade e demonstrar que o profissional da contabilidade ocupa espaço cada vez mais relevante em um mercado marcado pela tecnologia, análise de dados e participação nas decisões.
Segurança Jurídica, confiança e responsabilidade humana diante da inteligência artificial
As mudanças tecnológicas também pautaram as discussões da imersão. Em participação virtual, o ministro Luis Felipe Salomão relacionou liderança, confiança e responsabilidade social e abordou desafios jurídicos associados à inteligência artificial, à proteção de dados, à transparência de algoritmos e a outras tecnologias.
Para o ministro, "o primeiro tema dentro da capacidade de influência é a construção de confiança". Salomão ressaltou que liderar implica em ir além dos resultados imediatos: "Liderar é assumir responsabilidade e, na medida que se exerce responsabilidade pela liderança, atinge um conjunto mais amplo de pessoas. E ao atingir esse conjunto mais amplo de pessoas é que entra o tema da responsabilidade social".
O presidente do STJ sublinhou que a contabilidade é uma "importante profissão que perpassa hoje, de forma vertical, todo o funcionamento da economia em nosso país". Diante de um cenário de rápidas transformações tecnológicas, ele apontou que a relevância do profissional contábil se consolida justamente na construção da confiança, elemento indispensável para legitimar qualquer liderança no ambiente corporativo. Para além do cumprimento de obrigações fiscais tradicionais, debates sobre governança de dados, transparência algorítmica e novas ocupações emergentes — como a própria auditoria de modelos de Inteligência Artificial — posicionam o contador moderno como um agente estratégico e garante da segurança jurídica e da integridade nos negócios.
Após a exposição, Joaquim destacou a convergência entre os desafios da Justiça e a missão da Contabilidade, especialmente em relação à segurança jurídica e à confiança pública.
Impactos econômicos no cenário global e as oportunidades para o reposicionamento da profissão
O economista Eduardo Giannetti, responsável pela conferência magna, também ressaltou a importância da profissão diante das transformações econômicas e tecnológicas. Para ele, os profissionais da contabilidade fornecem elementos essenciais à tomada de decisão.
“O trabalho de vocês é fundamental porque são vocês que dão os elementos para que os tomadores de decisão ajam nas suas estratégias”, afirmou. Sem informações confiáveis, acrescentou, a gestão se transforma em um “voo às cegas”.
Giannetti avaliou ainda que a inteligência artificial poderá produzir impactos sobre a atividade contábil e exigirá revisão de práticas e funções. Ao mesmo tempo, destacou que a responsabilidade pelos números e resultados continuará a exigir profissionais capazes de responder pela qualidade e pela fiscalização das informações. Ao tratar da reforma tributária, reforçou: “Vocês são imprescindíveis nessa transição”.
Alianças ampliam presença institucional da Contabilidade
A estratégia apresentada durante o encontro também inclui o fortalecimento das relações institucionais.
O presidente defendeu ainda maior integração entre as próprias entidades da área contábil. Para ilustrar a importância dessa articulação, recorreu à imagem das “mãos dadas”, segundo a qual a força coletiva permite superar limitações individuais.
Essa visão também orienta a aproximação com ex-presidentes do CFC. No contexto das comemorações dos 80 anos da instituição, José Serafim Abrantes, presidente do Conselho na gestão de 1998 a 2001, recebeu homenagem por sua contribuição à Contabilidade brasileira.
“Os tempos novos, as tecnologias novas precisam ser adequadas e trazidas para nossa profissão”, afirmou Serafim ao destacar a necessidade de modernização.
José Martonio Alves Coelho, Maria Clara Cavalcante Bugarim, Juarez Domingues Carneiro e Zulmir Ivânio Breda, presidentes de exercícios anteriores, também participaram das reflexões sobre continuidade institucional, integração e os desafios impostos pelas transformações em curso.
Liderança para ampliar o espaço estratégico da profissão
Ao reunir formação de lideranças, modernização institucional, tecnologia, fiscalização, educação e articulação nacional, a imersão aponta para um objetivo comum: preparar o Sistema CFC/CRCs para fortalecer a profissão e ampliar sua participação nas decisões estratégicas das organizações e do país.
Na visão apresentada, esse processo exige capacidade de construir unidade sem desconsiderar as diferenças, investir nas pessoas e compreender que os cargos são temporários, enquanto a responsabilidade institucional atravessa gerações.
“Essa história não começou conosco. E também [...] não termina conosco”, afirmou o presidente do CFC.
Em um cenário marcado por inteligência artificial, reforma tributária, novas configurações econômicas e mudanças nas relações de trabalho, o CFC aposta na preparação dos gestores para fortalecer a profissão e a excelência na gestão do Sistema CFC/CRCs.
Gustavo Sousa
Comunicação CFC
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