Eliseu Martins resgata a história da Contabilidade em palestra de encerramento do XXIII Seminário Internacional da FACPCS

Durante dois dias, os principais temas da contabilidade mundial estiveram em debate no XXIII Seminário Internacional da Fundação de Apoio aos Comitês de Pronunciamentos Contábeis e de Sustentabilidade (FACPCS). O evento ocorreu nos dias 14 e 15 de outubro, em formato híbrido, com programação presencial em São Paulo/SP e transmissão on-line.

O encerramento do encontro, na manhã desta quinta-feira (15), contou com uma palestra do professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) Eliseu Martins, sobre o tema “Contabilidade Societária em Transformação: aspectos normativos, legais e tributários”.

O professor conduziu uma reflexão sobre a evolução histórica da Contabilidade e os desafios que ainda envolvem a relação entre as normas societárias e a legislação tributária. Ao reconstruir essa trajetória, Martins explicou que as Ciências Contábeis surgiram para atender às necessidades de controle patrimonial, de modo que sua origem está ligada à cautela na avaliação do patrimônio.

Na ocasião, o docente ainda enfatizou que a proteção aos credores ganhou espaço na legislação comercial europeia e contribuiu para a consolidação de práticas conservadoras. Posteriormente, a expansão dos mercados financeiros fortaleceu a importância das informações destinadas aos investidores. Nesse percurso, a Contabilidade passou a refletir diferentes interesses, como os de gestores, credores, acionistas e autoridades fiscais, que influenciaram a evolução dos modelos contábeis adotados em diferentes países.

No Brasil, Martins percorreu marcos da legislação contábil, desde o Código Comercial de 1850 e o Decreto-Lei n.º 2.627, de 1940, até a Lei n.º 6.404, de 1976, conhecida como Lei das Sociedades por Ações. Segundo o professor, a legislação de 1976 representou uma mudança importante na estrutura das demonstrações contábeis e na aproximação com o modelo anglo-saxônico. A criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 1976, que iniciou as atividades no ano seguinte, também integrou esse processo de transformação do ambiente societário.

Outro momento destacado foi a convergência das normas brasileiras aos padrões internacionais de Contabilidade (IFRS). Martins abordou a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e as mudanças legislativas que ampliaram a autonomia da Contabilidade societária em relação às regras fiscais. Nesse contexto, citou as Leis n.º 11.638, de 2007, n.º 11.941, de 2009, e n.º 12.973, de 2014, que marcaram etapas importantes da modernização contábil brasileira. “De fato, fisco não pode mais entrar na Contabilidade e qualquer norma contábil não pode, automaticamente, criar benefício nem para o fisco nem para o contribuinte”, disse, ao comentar os efeitos dessa separação.

Sobre o cenário atual, o professor chamou a atenção para a quantidade e a complexidade dos ajustes necessários para passar do lucro contábil ao lucro tributável. Martins lembrou que, em 2019, a Receita Federal (RFB) discutiu alternativas para a apuração do lucro real, incluindo propostas de desvinculação parcial ou completa entre os resultados contábil e fiscal.

Martins também ressaltou que a complexidade das normas e a quantidade de ajustes exigidos das empresas precisam ser consideradas no debate sobre o futuro da Contabilidade societária. Ao recordar as discussões promovidas pela Receita Federal, destacou a importância da abertura ao diálogo, enfatizando que, sempre que se depara com dificuldades ou desconforto diante das novas regras contábeis, o órgão busca debater o assunto de forma aberta e democrática com o mercado. Para o professor, a aproximação entre o Fisco e os profissionais da área pode contribuir para reduzir divergências e controles adicionais, sem comprometer a qualidade das informações contábeis.

Ao fim da exposição, o professor reforçou a importância de compreender o percurso histórico da Contabilidade para avaliar os desafios presentes e futuros. A evolução das normas, a relação entre legislação societária e tributária e a necessidade de informações contábeis consistentes permanecem no centro das discussões sobre o desenvolvimento da área.

Julliene Nogueira
Comunicação CFC

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