A cooperação internacional para fortalecer a Contabilidade, ampliar a qualificação profissional e preparar a classe para os impactos da inteligência artificial e da sustentabilidade é o principal destaque da edição nº 280 da Revista Brasileira de Contabilidade (RBC), publicação editada pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC).
Na reportagem de capa, intitulada “Separados pelo oceano, unidos pela Contabilidade”, a bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC), de Portugal, Paula Franco, aborda a parceria entre as entidades representativas da profissão nos dois países e aponta oportunidades para ampliar o intercâmbio técnico e científico, a educação profissional continuada e a participação dos países de língua portuguesa nos debates internacionais da área.
Ao tratar da transformação tecnológica, Paula Franco destaca que o avanço da inteligência artificial não representa o desaparecimento da profissão, mas uma mudança no perfil exigido dos profissionais. Para a bastonária, as novas tecnologias abrem espaço para funções que demandam competências técnicas, analíticas e estratégicas.
A ética também ocupa espaço central nessa discussão. “O principal desafio não é decidir se a inteligência artificial deve ser utilizada na contabilidade, mas como utilizá-la de forma responsável”, afirma. Segundo Paula Franco, diante da capacidade crescente da IA para executar tarefas complexas, o valor do profissional estará cada vez mais associado ao julgamento profissional, à interpretação de resultados, à conformidade normativa e à garantia de que a tecnologia seja utilizada em favor do interesse público e da confiança nos mercados.
A entrevista ainda aborda sustentabilidade, atratividade da carreira, convergência das normas internacionais e a atuação da União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (Ucalp). Outro destaque é o legado do professor Antônio Lopes de Sá, cuja contribuição aproximou as comunidades contábeis brasileira e portuguesa e ampliou a projeção internacional do pensamento contábil brasileiro.
No editorial da edição, o presidente do CFC, Joaquim Bezerra, ressalta que o fortalecimento dessa relação transforma afinidades históricas entre Brasil e Portugal em oportunidades de aprendizado, novas parcerias e projetos conjuntos. O texto também recorda iniciativas recentes de aproximação institucional e destaca a presença da Contabilidade em discussões relacionadas à governança, à sustentabilidade e aos efeitos das novas tecnologias na sociedade.
Inteligência artificial e reforma tributária
A edição nº 280 amplia o debate sobre assuntos que já interferem diretamente na atuação dos profissionais da contabilidade. Na seção Da Universidade à Sociedade, a tese “Inteligência Artificial, predição informacional e o risco de solvência na saúde suplementar brasileira”, de Marília Augusta Raulino Jácome, com orientação de Wenner Glaucio Lopes Lucena, analisa como modelos de IA podem contribuir para prever despesas assistenciais e apoiar a gestão econômico-financeira das operadoras de planos de saúde.
Os modelos analisados no estudo alcançaram acurácia entre 99,06% e 99,26% na predição das despesas das três operadoras estudadas. A pesquisa aponta aplicações da tecnologia na antecipação de cenários de pressão financeira, na organização dos fluxos de caixa, nas políticas de precificação e nas decisões relacionadas às provisões técnicas.
Outro tema de impacto direto para a classe aparece na seção Na Teoria e na Prática. O artigo “Reforma tributária sobre o consumo: entre a teoria da neutralidade e a prática da complexidade brasileira”, de Antônio Paulo Machado Gomes, leva às páginas da RBC uma das principais transformações do ambiente tributário nacional e aproxima a discussão acadêmica dos desafios enfrentados no exercício profissional.
Pesquisa contábil em diferentes frentes
A nova RBC também reúne estudos sobre formação profissional, controle, políticas públicas e tecnologia. Entre eles está o artigo convidado “Características associadas à resiliência acadêmica de estudantes de Ciências Contábeis da rede pública e privada”, de Nathalia Kathleen Rodrigues e Samuel de Oliveira Durso.
A influência das diferentes gerações no uso das novas tecnologias aparece no estudo “A influência das gerações Baby Boomers, X, Y e Z na percepção e adoção da Inteligência Artificial pelos profissionais da contabilidade do Estado de Mato Grosso”, de Lethicia Madalena Chiodi, Jusceliany Rodrigues Leonel Correa, Laercio Juarez Melz e Maysa Oliveira de Melo Antonio.
A publicação traz ainda “Avaliação da eficiência nos programas de transferência de renda nos estados brasileiros”, de Presline Blum e Felipe Storch Damasceno; “A independência dos órgãos de controle para a realização de auditorias financeiras: análise sobre a independência formal e sobre a aparência de independência”, de Elves Douglas Teixeira da Cruz; e “Entre o débito e o algoritmo: a Inteligência Artificial e o reposicionamento epistemológico da Contabilidade”, de André da Costa Ramos.
Com temas que vão da reforma tributária à inteligência artificial, passando por auditoria, formação acadêmica, políticas públicas e cooperação internacional, a edição nº 280 reforça a proposta da RBC de aproximar pesquisa, prática profissional e os grandes desafios que transformam a Contabilidade no Brasil e no mundo.
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